Após sofrer uma descarga elétrica enquanto trabalhava na extração de açaí em uma fazenda em Santa Maria do Pará, Antônio Samuel Nascimento Silva, de 26 anos, encontrou na tecnologia assistiva um caminho para retomar a independência. Internado há mais de dois meses no Centro de Tratamento de Queimados (CTQ) do Hospital Metropolitano de Urgência e Emergência (HMUE), em Ananindeua, o jovem teve amputação bilateral dos membros superiores, mas voltou a realizar tarefas rotineiras com o auxílio de uma órtese personalizada desenvolvida pelo Laboratório de Tecnologia Assistiva (Labta) da unidade hospitalar.

A adaptação foi elaborada para permitir que Samuel desempenhe atividades que antes dependiam do suporte constante da mãe. Confeccionada com couro sintético, feltro e uma estrutura rígida de PVC, a peça é fixada ao coto do paciente e possibilita o acoplamento de utensílios, como uma colher, permitindo que ele leve o alimento à boca e manuseie aparelhos eletrônicos sem intermediação.
“Eu consigo comer sozinho, escovar os dentes só. Melhorou também para mexer no telefone”
A mudança representou um salto na rotina do paciente de Santa Maria do Pará, que antes recorria à mãe até para redigir textos breves.
“Tudo era minha mãe. Escovar os dentes, me dar comida, mexer no telefone. Eu mandava ela digitar para mim. Hoje em dia, não. Eu digito, mando áudio para todo mundo”
A nova condição possibilitou ampliar a interação com amigos e familiares à distância, gerando curiosidade em sua rede de contatos.
“Muita gente até pergunta: ‘Como é que tu digita, Samuel? Como é que tu escreve, manda mensagem?’. Aí eu pego e explico”
Processo de reabilitação e superação
A terapeuta ocupacional Samanta Oliveira, atuante há quatro anos no HMUE, explica que a adaptação integra um plano terapêutico amplo focado na reconstrução da autonomia.
“Não tem uma fórmula pronta, nem uma órtese pronta para distribuir. A gente olha para o paciente, vê qual é a necessidade dele e tenta trazer uma solução”
“Eu utilizo esse dispositivo para o paciente que foi vítima de amputação bilateral. Então, o paciente perdeu os dois membros, ficou dependente em atividades que são significativas para ele. Alimentação, escovação de dente, uso do celular, dependendo do paciente, é uma atividade importante”
A profissional pontua que o suporte começa com exercícios físicos específicos antes da entrega do equipamento.
“Começa com os treinos de força, de ganho de amplitude, que são básicos da nossa profissão. Depois a gente vai evoluindo, pensando na funcionalidade, na autonomia, na independência”
O impacto da intervenção trouxe alívio emocional a Samuel, que enfrentou um período crítico logo após as cirurgias.
“Antes, logo quando eu fui para a cirurgia, eu chorava. Toda noite chorava. Chorei muito, muito mesmo. Hoje em dia, não”
O trabalhador relembrou o momento em que soube do desenvolvimento da peça exclusiva para o seu caso e celebrou as vitórias graduais obtidas na enfermaria.
“Fiquei muito alegre, demais. Eu sabia que ia melhorar para mim e tudo. Fiquei alegre demais”
“Eu falei: ‘Mãe, eu quero água’. A garrafa estava lá no quarto. Eu vim sozinho, peguei a garrafa, botei debaixo do braço e fui”
“Foi uma melhoria muito boa”
Produção hospitalar e prevenção
Criado em 2019, o Labta atua diretamente na confecção de órteses, coxins e recursos funcionais dentro do próprio hospital. O modelo garante agilidade e segurança, evitando a manipulação de ferramentas pesadas ao lado dos leitos. De janeiro a julho de 2026, o setor produziu 1.052 dispositivos. Em 2025, o total confeccionado alcançou 1.988 unidades.

Além de atender vítimas de traumas graves como Samuel, o laboratório atua de forma preventiva. Na clínica neurocirúrgica, pacientes vindos da UTI recebem dispositivos de descompressão lateral, de cabeça ou de calcâneo para evitar lesões por pressão, conforme explica a terapeuta ocupacional Andressa Ataíde.
“Dependendo do biotipo do paciente, a gente adapta para que seja algo um pouco mais funcional”
“Alguns recebem todos. Outros acabam recebendo só esse tipo de dispositivo ou algum muito específico, porque é a área de contato. Dependendo da fragilidade da pele da pessoa, a gente tenta munir o mais rápido possível”
A utilização de insumos hospitalares proporciona sustentabilidade e respostas imediatas ao quadro clínico dos internos.
“Tudo que a gente pode fazer que venha do hospital, a gente produz aqui, de materiais daqui, justamente para alcançar o nosso paciente de forma rápida, eficaz e sustentável”
“Na Terapia Ocupacional, a gente sempre usa uma palavra muito bonita, que é significado. A gente lida com histórias, com significados e com realidades”
Para pacientes que enfrentam perdas severas de mobilidade e integridade física, os recursos abrem portas para novos horizontes após a alta médica.
“O paciente, quando recebe a notícia de que vai ter que amputar o membro, para ele é o fim. Na verdade, é um novo começo”